Passei vários dias refletindo sobre o discurso do sujeito. O que é ser realmente um motociclista? E o que é esse tal espírito motociclista?

É pertencer a um grupo e colocar um colete? É seguir padrões e regras impostos por um grupo? É viajar muito e ter histórias para contar?

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Sempre penso que encontramos todos os tipos de motociclistas. Aqueles que tem grupos ou clubes e os que não tem; os que seguem padrões e regras e os que se reúnem simplesmente para celebrar a vida e a amizade; e os que viajam muito, que planejaram a vida para desfrutar e desbravar novos caminhos ou que tem dinheiro e disponibilidade de tempo para isso e os que não tem a mesma sorte de poder viajar tanto quanto queriam.

O que faz um motociclista são suas atitudes. Com seus amigos, com estranhos, em casa, próximo ou mesmo em um lugar distante. É o que se torna público, visível. É o seu jeito de falar com o próximo.

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Aprendemos muito com a fala do outro, pois quem fala, fala de algum lugar. E de algum tempo.

Quando leio ou vejo entrevistas de motociclistas viajantes, com experiência de lugares distintos ao seu, que aprendeu com outros povos, consigo vislumbrar a importância da fala, do discurso que transcende o indivíduo. Passa a ser algo “nosso” – não individualizado.

Pensando nesse conceito de motociclista me lembrei da música do U2 ” still haven’t found what I’m looking for”, uma canção gospel mas que menciona sobre não ter encontrado ainda o que estava procurando. Nem sempre encontramos esse motociclista, pois muitos tem moto e até participam de moto clubes ou moto grupos.  Mas não conseguem entendem essas crenças que norteiam esse mundo tão particular do motociclismo.

Isso sim é ser motociclista: deixar de pensar em si para pensar no coletivo, no próximo; é ter prazer em subir numa moto, seja qual for a cilindrada e curtir a vida pelo simples fato de tê-la. É usar a moto pra ir para o trabalho, para estudar, para dar um rolezinhho pela cidade com as amigas ou planejar aquela viagem dos sonhos.

Não importa o tamanho da viagem nem a quilometragem que se tenha. Quem é motociclista sabe que o desejo está no sangue. A camaradagem, o espírito livre, a paz, a simpatia. É totalmente perceptível.

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Os indícios são perceptíveis mesmo para quem não entende de motociclismo. É sorriso aberto, é estar em grupo mas não ser tirano e dominador. É estar junto por compartilharem o mesmo espírito, a mesma paixão.

É pegar a estrada com chuva, com frio, neblina… seja lá o que for. É sentir prazer só por estar em cima de uma moto e com o essencial que completa qualquer motociclista: estar junto em grupo.

Tudo é leve em um moto grupo quando temos pessoas assim participando. Aquela válvula de escape do mundo rotineiro, que te cobra, que cansa, que te ilude está aqui: no verdadeiro espírito motociclista.

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Sei que essas também são minhas verdades. E a verdade é construída pelo sujeito.

Tenho medo de pensar nas “minhas verdades” como verdadeiras a ponto de me impedirem de desconstruí-las, de crescer como sujeito.

Ao mesmo tempo compreendo (mas não a ponto de aceitar, ainda) o posicionamento de certos sujeitos que, no seu mundinho, acreditam cegamente na sua verdade a ponto de fantasiar uniões que não existem ou grupos de um homem só.

Nietzsche já dizia: “Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém exceto tu, só tu”.

Pessoas que não vivem em grupo podem muito bem continuar seu desejo e sonho de ser motociclistas. Solitários, que vivem seus anseios, lutas e vitórias e que planejam seus destinos sozinhos, sem magoar ninguém e sem querer ser melhor que ninguém. Muitas pessoas não conseguem viver em grupo, trabalhar em grupo e devem resolver isso o mais breve possível para não fazer os outros sofrerem. Só sinto muito por aqueles que não se enquadram em grupo nenhum; que não conseguem ser solidários e que ainda insistem em querer pertencer a um grupo, como se isso fosse garantir a ele o “título” de motociclista. Destes eu tenho muita pena e torço para que seu espírito encontre paz.

Tem espaço para todos nesse mundo. Basta conhecermos melhor a nós mesmos e buscar o melhor lugar. E para aqueles que se encontraram em um moto grupo ou moto clube só desejo a maior e melhor sorte de bênçãos pois é como renascer em outra família. É estar no mundo fazendo a diferença na vida de alguém…

É acordar e pensar como essas pessoas estão; o que farão dos seus dias; se precisam de auxílio; se estão felizes. É se sentir acolhida por quem até pouco tempo não se conhecia mas que hoje não se vive sem…

É vibrar com a vitória de cada membro do grupo: seja na aquisição daquela tão sonhada moto; na viagem tão planejada; nas realizações da vida cotidiana.

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E como disse o grande motociclista Paredes ser motociclista é:

“Ser solidário com os companheiros, o Saber a hora de agradar e a hora de calar, o Olhar para um companheiro e saber entender seus problemas, o Ter a sensibilidade para sentir o vento roçar seu rosto quando em baixa velocidade, o Ser acariciado pela brisa e saber que Deus existe e te protege, o Saber que está sendo aguardado pelos companheiros, o Sentir o prazer de compartilhar os problemas dos motociclistas e apresentar soluções, o parar e ajudar outro motociclista na estrada mesmo sem conhecê-lo”

É um estado de espírito, uma paixão, é um jeito de ser.

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Uns diriam que ser motociclista é uma doença, eu digo que é um caso de amor. É nisso que acredito!

Venha para o meu mundo boas estradas!!